Literatura infantil para todos.

ARQUIVO DO BLOGUE NO FIM
v. 2 Criei o Triciclo de papel porque sentia necessidade de escrever sobre livros infantis e partilhar o que penso com outras pessoas. É um blogue não académico, não institucional, talvez (espero) mais um contributo para a divulgação da literatura infantil.

v.1 Triciclo de papel
é um blogue dedicado à literatura infantil, publicada em Portugal e Espanha, considerada na sua função didáctica e formativa e, como não podia deixar de ser, perspectivada de uma forma lúdica.
O subtítulo literatura infantil para todos remete para os nossos filhos, para os nossos alunos, mas também para nós, que muitas vezes não temos tempo para ler senão os livros supostamente dedicados a eles.

05/04/11

Francisco Rico e a literatura infantil


(Hoje sem imagem)

Francisco Rico, um acreditado e conhecido filólogo espanhol escreveu em Janeiro um artigo de opinião contra a lei do tabaco que entrou recentemente em vigor em Espanha e que estabelece a proibição de fumar em todos os espaços fechados de uso público ou colectivo. O autor, num texto duríssimo apresentava argumentos contra o que considera ser uma lei exagerada e persecutória em relação aos fumadores e terminava com um PS. dizendo que nunca tinha fumado um cigarro em toda a vida. Acontece que a imagem de marca desta personagem é a de fumador compulsivo. Como consequência, choveram cartas em que se criticava Rico por, num artigo de opinião, ter faltado à verdade. É claro que o PS. de Francisco Rico levanta muitas questões, a começar pelos limites entre literatura e jornalismo e terminando na simples interpretação textual. No que me interessa aqui reflectir é no carácter transgressor do artigo, pois penso que transgressões pontuais são indispensáveis na nossa vida. É isso que nos faz crescer e evoluir, em definitiva: MUDAR. Pequenas transgressões dos alunos são um sinal de que algo não vai bem e que há que mudar. Pequenas transgressões dos cidadãos podem ser interpretadas no mesmo sentido. E no que respeita a qualquer forma de arte estamos perante a transgressão em si mesmo. Arte é transgressão. Fazendo a transposição para o panorama da literatura infantil, o que é que encontramos? Deparamos com livros tendencialmente moralistas, histórias que indicam como fazer, como agir, COMO SER, acompanhadas de lindíssimas ilustrações. Não digo que não haja lugar para este tipo de livros, mas deve haver por parte de editores e autores (sem nos eximirmos das nossas responsabilidades com as crianças) um maior cuidado na publicação e um maior empenho na escrita de textos mais arrojados, textos abertos, textos que não digam tudo, textos que contem histórias e não sejam meras receitas de bom comportamento, textos que se desvinculem de finalidades ou objectivos, textos que façam pensar. Não temos o direito de menosprezar as nossas crianças. Mudemos.

01/04/11

Ovelhinha dá-me lã


                         Ovelhinha dá-me lã, Kalandraka, Janeiro de 2010
                         22.8 cm. x 22.5 cm.             28 págs.


                         Texto: Isabel Minhós Martins
                         Ilustrações: Yara Kono



-Ovelhinha dá-me lã.
-Para que queres a minha lã?

É este o refrão que o menino-protagonista utiliza para poder fazer roupas bem quentinhas com que se abrigar do frio: um casaco, um barrete, um bom cachecol, um par de luvas, um par de meias, um sobretudo. Mas não fica por aqui. Perante a extrema generosidade da ovelhinha tosquiada, o menino decide tricotar mais peças de roupa de forma a proteger a sua amiga do frio, revelando uma atitude de autêntica partilha.
Trata-se de um texto rimado, escrito de uma forma muito clara, com recurso a um vocabulário também muito adequado, o que nem sempre acontece na literatura infantil em verso.
As ilustrações da Yara Kono são de uma sensibilidade e de uma coerência fora do comum entrando em produtivo diálogo com o texto e criando uma atmosfera que apela ao que de mais genuíno há em nós.

Uma proposta: por que não musicar o texto?


31/03/11

Pê de pai II


Não tenho dados confirmados, mas basta estar atento aos tops das livrarias para perceber que Pê de pai é um título que vende bem.
Porquê?


Não é um livro infantil clássico, no que toca às ilustrações; 
não é o livro de nenhum super-herói conhecido; 
não é sustentado por nenhum programa de desenhos animados na TV; 
não obedece a fórmulas de escrita destinadas a colocar e a resolver questões às crianças;


É um livro extremamente simples que apaixona os pais porque se revêem nele e que apaixona os filhos porque sentem o entusiasmo dos pais, porque se identificam com as personagens e porque ainda estão abertos a modelos estéticos que fogem do padrão.


É um livro que foi construído para ser um livro e não um mero objecto.


Obrigada, Planeta Tangerina!

30/03/11

O ganso do charco


O ganso do charco, Livros Horizonte, 2006 [2004]
23.7 cm. x 27.7 cm.        28 págs.

Texto e ilustrações: Caroline Jayne Church



Na quinta, o bando de gansos de penas reluzentes rejeitava o ganso que chapinhava na lama. O que o grupo não sabia era que o ganso sujo ganhava assim uma bela camuflagem e nas noites de lua cheia, enquanto a raposa corria atrás do bando, o ganso do charco passava despercebido. Quando finalmente foram ter com o ganso diferente e este lhes explicou o que acontecia, passou a reinar a tranquilidade na quinta. Agora todos chapinhavam na lama. Até que o tempo mudou e o ganso diferente foi procurar uma poça de água limpa para se lavar. Começou a nevar. A raposa apareceu e voltou a perseguir todos os gansos menos o ganso do charco, que tinha sabido camuflar-se a tempo mas a quem ninguém tinha dado ouvidos. Mesmo assim, decide ajudar o grupo afugentando a raposa, que nunca mais se irá aventurar por aquelas paragens.
É curioso como a utilização de uma ideia semelhante (personagens camufladas no ambiente) pode resultar em projectos tão diferentes (ver post anterior).
A Bruxa Mimi é um livro centrado nos afectos enquanto o Ganso do charco aborda sobretudo a questão da integração no grupo e reconhecimento dos pares.

29/03/11

A Bruxa Mimi


A Bruxa Mimi, Gradiva, 4ª ed., Outubro de 2008 [1987]
28.4 cm x 22 cm.         26 págs.


Texto: Valerie Thomas
Ilustrações: Korky Paul


A simpática bruxa Mimi vivia numa casa onde tudo, mas tudo, era PRETO... com excepção dos olhos verdes do seu gato Rogério. Quando o gato estava acordado a Mimi conseguia distingui-lo perfeitamente, mas mal adormecia deixava de se tornar visível e a Mimi tropeçava nele constantemente. Como é uma bruxa, transforma-o num gato verde, só que um belo dia apanha-o a dormir na sua cama, o que lhe vale a expulsão de casa para o jardim... VERDE. Ora aqui a mascote confunde-se novamente com o ambiente e a Mimi volta a tropeçar nele. Decide, então, transformá-lo num gato multicolor. Assim tem a certeza de que sempre conseguirá avistar o animal. No entanto, o Rogério sente-se ridículo e decide fugir para o cimo de uma árvore. Não quer sair de lá e Mimi tem de resolver o problema de vez: o estimado gato regressará ao seu estado normal e é a casa que irá sofrer uma transformação radical, enchendo-se de cor.